7.2.17

uma nuvem de pólvora no ar

E o que fica depois da festa e da guerra?
Apenas uma nuvem de pólvora no ar.
Afinal não são mais que dois estados de euforia, nos dois polos opostos.
E gosto, estranhamente, da paz decadente que se instala neste ambiente de nuvem de pólvora pós-festa. Deixa-me num modo totalmente contemplativo e só observo. Quem passa, os ecos que soam abafados de todos os lados, as motas que percorrem solitárias a rua, os cães que ladram, os últimos foguetes que estouram no ar.
E porquê esta solidão tem ao mesmo tempo algo tem algo de tão inspirador que me enche o peito de uma estranha melancolia que se mistura com prazer?


foto de meiomaio


.

Tinha chegado naquela manhã, bem cedo, a Montevideo com o Sebastian. A noite do ano-novo ia ser passada como outra qualquer, num jantar na casa dele nos arredores da cidade com mais dois amigos. Para mim, melhor assim.
Um pouco antes da meia noite fui para o terraço e assim fiquei, a observar o céu, na noite mais quente que senti desde que tinha chegado à América do Sul.
Começaram pouco a pouco a estalar pelo ar. Até à meia-noite, em que de todos os lados estoiravam luzes coloridas pelo céu. E assim vivi a passagem para o novo ano. Calada, comigo, e a olhar aquele céu de luzes e explosões que se iam pouco a pouco dissipando. E os miúdos das casas da frente que saiam a mandar petardos, as famílias que começavam a sair, a música latina que com o calar dos fogos se começava a ouvir, assim difusa, talvez abafada por todo aquele fumo de pólvora que pairava pelo ar. E de repente, no meio de tudo, um tango. (ai, e a beleza da melancolia…)
E penso. Em tantas coisas e em nada ao mesmo tempo (talvez devesse só sentir). Na minha vida, no estar aqui, no maravilhoso inesperado da vida. E em ti. E porquê tu sempre tão presente na minha cabeça? (ou no meu peito.)

Montevideo, Uruguay

2 comentários:

  1. Lembro-me muitas vezes de ti, aí longe. Curiosas, estas coisas. Nem nos conhecemos nem nada. Espero que continues a fazer e a viver (bem) o teu caminho. E gosto que as noites de ano-novo sejam noites como as outras no que é exterior. Interiormente, olhar as coisas, ouvir a música que nos acontecer, lembrar alguém.

    Um beijinho*

    Mar

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ohh, querida Mar... ♥♥
      De outra forma, vamo-nos conhecendo. Ou pelo menos uma parte de nós :)
      Muito obrigada por seguires sempre desse lado.
      Um beijinho grande destas terras de longe *

      Eliminar