18.11.20

o milho entre os vulcões

O condutor do autocarro deixou-nos no meio da panamericana. Ainda varridos pela velocidade dos carros que passavam e sem saber muito bem para onde ir, um simpático casal diz-nos “No se preocupen, todo aquí es muy seguro”.
O caminho era de umas casas cinzentas salpicadas numa paisagem de campo verde e rodeada de imponentes vulcões com nuvens agarradas ao topo que quase nunca os deixavam ver por completo. Contam as lendas que a mãe Cotacachi é o vulcão protector do feminino e o pai Imbambura o do masculino e que são eternos apaixonados um pelo outro.
A casa que nos acolheu naqueles dias estava mesmo no meio destes dois gigantes. Uma pequena casinha de barro à qual se chegava por um caminho de terra rodeado de eucaliptos e campos de milho. E foram dias de plena tranquilidade, provavelmente os dias de maior paz de toda a viagem e onde nos sentimos mais em casa.
A calma do campo, as animais, o sol, o frio e a chuva, a presença dos vulcões e a paz que nos transmitiam as senhoras que moravam ali.
À noite era observá-la na sua rotina de cada dia (e a calma e a presença com que fazia tudo). Como acendia o fogo e lentamente ia preparando a sua sopa de farinha de milho da sua colheita. E como pouco a pouco o cheiro a lenha e a paz que ela transmitia iam preenchendo todo aquele lugar. Era simplesmente observá-la em silêncio. Ou ajudá-la a debulhar o milho.
E era tanto.
E observar a fortaleza de como caminhavam descalças sobre o chão frio e molhado da chuva da manhã. E pareciam duras por dentro também. Mas com o passar dos dias íamos ganhando a sua confiança e pouco a pouco iam revelando o seu lado mais doce.
E a Marina. A filha solteira que falava sempre alegremente connosco e que durante a tarde bordava minuciosamente umas faixas de flores em tons rosados; sentada à porta de casa com um gatinho no colo que procurava o seu calor.











fotos de meiomaio



Laguna de Cuicocha e Ilumán, Ecuador

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