26.10.20

en la ciudad de la eterna primavera

En la ciudad de la eterna primavera todo grita de una forma atroz.
En la ciudad de las flores los cadáveres humanos aparecen tumbados por las aceras, y la gente simplemente los contorna como si fueran ellos una planta que nació allí.
En la ciudad de la eterna primavera el clima es más pesado que nunca y en nada tiene que ver con la temperatura del aire.
En la ciudad de las flores las chicas indígenas están sentadas en las aceras con vestidos de colores y la mirada de un gris vacío, y venden collares de cuentas de todos los colores mientras cargan a sus hijos sucios del negro ciudad. O bailan musicas alegres con una tristeza en el alma de quien ya no tiene nada, de cuando, arrancadas de su propia tierra, ya todo perdió el sentido.
En la ciudad de la eterna primavera todo es ruido, todo es estímulo, todo es contaminación y tensión y la decadencia humana aparece sin vergüenzas por todos lados. Y la memoria. La memoria pesa.
En la ciudad de las flores no hay horizonte.
Y los pájaros son esculturas de bronze rotas. Por quince quilos de dinamita.



fotos de meiomaio




Medellín, Colombia

17.10.20

o vale encantado






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O ambiente ali era de encantamento.
Talvez pelas nuvens que dançam por entre os montes carregados de verde denso e que de forma sedutora nunca nos revelam aquela paisagem por completo. E pelo jogo de claro escuro e de relevos em constante movimento que criam uma aura de mistério e magia.
Depois a mistura inesperada de um bosque de clima temperado frio e das maiores palmeiras que alguma vez vi. E mais uma vez os contrastes tão presentes neste país.
Os Andes. E tantas caras que pode ter esta imponente cordilheira. Desde as escarpas inóspitas e duras que me aterram a estes montes e vales cobertos de um verde que aconchega e que me faz sentir num sonho.
Esta cordilheira é muito, muito mais do que aquilo que eu posso ver ou sentir (ou se quer imaginar). É de uma grandiosidade que nunca poderei alcançar.
Será que o condor que sobrevoa estes vales pode chegar a senti-la?

fotos de meiomaio



Valle del Cocora, Quindío, Colombia

19.9.20

os azulejos aqui são uns passarinhos azuis celeste








fotos de meiomaio

 

"Os azulejos aqui são uns passarinhos azuis celeste.

As pêras e as maçãs são as mangas e as bananas e o trigo é o milho e o plátano verde.
O bom tempo aqui chama-se ao clima mais fresco e o verão e o inverno são noções que variam de região para região.
Aqui a maioria da população vive longe do mar, a maioria estão nas montanhas do interior. E a grande parte da costa não se pode chegar.
Aqui as distâncias não se conseguem ver no mapa, dependem muito mais da dificuldade para passar as montanhas que as separam, ou as selvas, ou os rios.
As gaivotas que aí estão presentes nos céus, aqui são águias e abutres que planam em círculos por entre as montanhas.
O sol aqui nasce sempre às 6h e põe-se sempre às 18h, todo o ano.
Aqui a noção de país é algo muito mais variante, com realidades tão diferentes dependendo da região, cidade, aldeia.
Aqui a imensidão de natureza sem fim é equivalente ao sem fim de estradas e povoações que recortam a paisagem daí.
Aqui a marca do ser humano ainda não chegou a todo o lado, ainda não invadiu todo o território.
Aqui existe o conceito de selva primária, ou bosque primário.
Aqui a polícia que patrulha as ruas são militares com armas de guerra.
Aqui não posso ir a todo o lado, muito do território é inalcançável, ou pelo selvagem da natureza ou pelo lado mais selvagem do ser humano.
Aqui os sumos, os gelados são de fruta de verdade e ainda se faz iogurte e doce de leite com leite puro, sem pasteurizar.
E ao mesmo tempo aqui as cadeias de fast food ainda provocam fascínio.
As plantas que aí só se vêm em vasos, aqui crescem frondosas à beira das estradas, dos caminhos, por todos os lados.

E há passarinhos de todas as cores."

Jardín, Colombia

19.8.20

Salento

“Los abuelitos de este pueblo me transmiten mucha ternura. O quizás sea todo en este pueblo y ellos son el reflejo de eso.
Me acuerdo particularmente de ese señor que iba caminando por las calles vendiendo unas flores amarillas frondosas y las llevaba así en la mano con orgullo.
Será de eso o de los perros pachorras que siempre duermen relajados en las aceras como si todo les pudiera pasar por encima que nada les quitará su paz.
O de los gatitos que aparecen simpáticos de todos lados y que vienen confiados a saludarnos con su ronroneo entre nuestras piernas.
O simplemente de lo bonitas que son las casas pintadas de todos los colores; o de las flores que las adornan.
O de todos los tonos de verde que envuelven este pueblo.
Y la temperatura que no llega a ser demasiado fría ni demasiado caliente.
Y la lluvia que viene de golpe, como ahora, y tan rápido se va como vino y pronto vuelve el sol, y las nubes magicas, y los arco iris.
O de los pájaros de varios colores que van apareciendo entre las ramas (o el grande condor en el valle).
O de la musica melodramática que nos lleva a otros tiempos, que se va escuchando aquí y allá, pero principalmente la que viene de ese bar mítico donde hombres se reúnen jugando cartas y snoker, o simplemente se sientan en su silla de todos los días y ven la vida pasar (la magica decadencia del confort de las rutinas). Y todo allí quedó parado en el tiempo.
O los señores que tocaban las guitarras y cantaban en el mirador, con la pasión de la juventud pero la opacidad de la vejez.
Y los sombreros y los ponchos.
El aire del campo.
Y los caballos que se escuchan pasar de tiempo en tiempo y que su sonido casi se confunde con el de una lluvia fuerte.
El olor a tierra mojada.

Los montes que desaparecen en el medio de la niebla. Las nubes que tocan la tierra.


La tierra y el cielo tan cerca.

El cambio constante.


Y la luna roja que se bajaba sobre los montes y que se avistaba desde la ventana.”











fotos de meiomaio


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Salento, Colombia

11.6.20

um rosa salmão, ligeiramente alaranjado

foto de meiomaio


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"E enquanto caminho sobre a areia molhada um sem fim de bolinhas de um rosa salmão, ligeiramente alaranjado, rebentam debaixo dos meus pés.
A mesma cor que pouco a pouco vai pintando as nuvens e o céu que se encosta no horizonte. É uma cor doce, suave, amena, que não chega a ser quente mas que aconchega. Tal como a temperatura deste mar e desta brisa.
Talvez tudo aqui, no fundo, seja feito dessa cor."

Daquelas paragens fiquei sem as imagens. As da máquina.
Que as da alma se mantenham sempre com as cores bem presentes.

Ayampe, Ecuador

5.6.20

nos mercados






fotos de meiomaio



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As cores. Das frutas, muitas desconhecidas para nós. Dos letreiros, das paredes, dos sumos, dos pratos, das músicas alegres.

Os cheiros. Aqueles quentes e húmidos que vinham das panelas que cozinhavam desde bem cedo. De carne crua, de peixe, os pesados das frituras e os frescos das frutas. E aqueles verdes, que vinham das bancas das ervas medicinais.

Os sabores. O sabor fresco doce das frutas, o sabor quente e massudo do platano verde e o sabor fresco e salgado do peixe e marisco, regado num caldo de tomate, yuca e cebola e polvilhado com a magia fresca e aromática dos coentros, tudo isto num prato de encebollado de pescado e gambas, às nove da manhã.

Quito e Baños de Agua Santa, Ecuador e Cali, Colombia

18.11.19

o fim da terra




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"O vazio e o cheio ao mesmo tempo. A imensidão. O tudo e o nada. Tanto que se vê que se perde de vista. Tanto azul.
O silêncio e o som das ondas e do vento. O que se vê e o tanto mais que não se vê. A calma. A profundidade. A superfície.
Ar, água e terra. A solidão. A introspecção. Tanto e tão pouco. Quando tudo se une.
(...)
Fecho os olhos, respiro fundo e quero levar comigo todo este azul."

Finisterra, Galiza

8.4.19

E mergulhávamos naquele azul profundo






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A magia aparece sempre na mudança, entre uma coisa e outra. No efémero, no que dura pouco.
No momento em que o verde se torna azul.

À medida que as águas escureciam, quando os pássaros deixavam de cantar, tudo se envolvia numa aura de mistério e introspecção. Sentíamo-nos pequenos, alerta, indefesos. Atentos a tudo. Lentamente íamo-nos voltando cada vez mais para dentro. Como tudo à nossa volta.


E mergulhávamos naquele azul profundo.


fotos de meiomaio


pelas margens do rio Lima e do Rio Vez, Minho, Portugal

26.12.18

primavera do inverno





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ar frio e sol quente
o granito e a água

a vida e a morte.


fotos de meiomaio


Porto, Portugal

22.11.18

de um passado que já não existe

Enquanto caminhava pelas ruas ensopadas (tal como o meu corpo) sentia-me assustada pelo peso que toda a cidade exercia sobre mim. Havia em tudo uma complexidade retorcida. Seria da cidade ou de todas as recordações que me trazia?
O chão brilhava encharcado e um cheiro a metálico pegava-se a tudo. Tudo era metal naquele momento. Duro, complexo, brilhante, frio e impenetrável. Era um misto do medo de chegar, da dimensão da cidade e dos solavancos do avião que ainda ecoavam na minha cabeça.





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"Há memórias por todos os lados. Nas paredes, nos muros, nos bancos, nas árvores. Tudo me recorda histórias, me faz reviver momentos de um passado que já não existe. E o que fica é só isso. As histórias que se escrevem na nossa mente. São muitas. Talvez daí o peso.
E chove, com uma intensidade como só acontece por aqui. E o céu começa a rugir. Mas nem tudo isso consegue lavar as memórias. Elas ficam, desgastadas pelo tempo como as marcas daquele coração pintado em momentos de inocência primaveril que quase roçava a loucura (e foram tantos os momentos de infância tardia vivida debaixo daquelas árvores).
Mas há nestas memórias uma solidão que quase ensurdece de tão estrondosa que é. Todas as almas só estão nas memórias da minha. De resto são lugares despidos de gente. E são as imagens do que permanece que desenham na minha mente a alma do que já se foi e quase posso voltar a sentir as emoções. Mas no fundo são só as formas inanimadas que serviram de fundo a tantas histórias. Essas ficaram naquele momento e o resto são só lembranças. Talvez seja esse o peso.
E do céu ecoam estrondos de raiva e cai tanta água, tanta. Será para limpar tudo o que ficou em mim?"





fotos de meiomaio


Barcelona, Catalunha, Espanha