22.2.17

como uma grande diva



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Buenos Aires apareceu assim, como o mito que é. Lentamente foi surgindo entre os tons de azul do céu e do mar. Sob um sol forte de Verão e sobre todos os brilhos que se reflectiam no Rio de la Plata. Pouco a pouco os recortes da cidade iam aparecendo, rasgando o horizonte, como uma grande diva que surge num palco de um coliseu. E já dali podia sentir a sua imponência, a força da sua presença. Que segredos me contarias?



fotos de meiomaio


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E depois aquela senhora de olhos azul-céu, cabelos louros escorridos e um pouco desgrenhados, lábios pintados de vermelho forte, pose amedrontada e um vestido de flores, cantava baixinho uma melodia de outros tempos, que não sei porquê me levava a Paris. E para uma época de glamour. E de repente a decadência poética empoeirada e com cheiro a mofo. E fumo de cigarros fumados entre conversas lentas e pouca luz. Ali, no primeiro autocarro que apanhei, acabada de chegar a Buenos Aires, enquanto vislumbrava as primeiras avenidas pintadas com a luz de final de tarde. Era aquela a diva esquecida?

Buenos Aires, Argentina

19.2.17

naquela direcção

E depois foi o contemplar:





fotos de meiomaio


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“Aqui, sozinha, junto ao mar, na rambla de Montevideo, contemplo o primeiro pôr-do-sol no mar desde que comecei esta viagem. E sinto-me tão bem, de coração cheio. Será pelo sol que se põe no horizonte, tão familiar para mim? Será porque, apesar de tudo, me sinto muito mais em casa numa cidade e sou, decididamente, uma pessoa urbana? Será simplesmente pela energia marítima e luminosa desta cidade? Será por, pouco a pouco, ir alcançando a plenitude do estar bem só comigo, livre e solta no mundo? (e é tão maravilhosa essa sensação) Será pela lua que começa hoje um novo ciclo ascendente? Ou é porque este sol aponta a Oeste? Sudoeste. E detrás deste horizonte começam as terras argentinas. Onde estás tu. Será simplesmente porque este sol aponta o meu caminho? (e estou na direcção que tinha que estar.)”

Montevideo, Uruguay

17.2.17

da importância da contemplação

Naquela cidade as pessoas ainda sabem parar.
Sentar-se à porta de casa, na marginal, ou num passeio numa esquina qualquer e tomar calmamente o seu mate. E não, em nada tem que ver com o nosso ritual do café. O mate não necessita explanada. Leva-se o termo debaixo do braço e pára-se onde apetecer. E todo aquele ritual da água quente que ensopa as ervas amargas combina tão bem com a calma de simplesmente ficar a ver a vida passar. Sim, ali ainda se sabe a importância da contemplação.

Naquele dia tinha chegado sozinha àquela cidade, depois de apanhar um autocarro local que me levava dos arredores ao centro. E naquele dia sim, pude senti-la. Ao meu ritmo. No início nada me dizia em especial, mas é preciso a calma, essa tal contemplação, e tudo chega a seu tempo. E a mim chegaram-me umas ruas inesperadamente calmas e silenciosas, com casas baixas e de uma arquitectura bastante familiar, recortadas pelo claro-escuro das sombras das árvores com as suas folhas de um verde claro, quase em tons de amarelo. Era final de tarde, e essa doçura ajuda a tudo, é verdade. E percorri-as sem rumo definido. Um senhor de já bastante idade que tomava o seu mate à porta de casa perguntou-me “Qué buscas?”. “Cosas bonitas. Y esta luz.” disse-lhe. Disse-me também com orgulho que ali iam abrir uma livraria. E continuei, até chegar ao mar, onde a luz banhava tudo de um ouro claro e luminoso. E sentei-me, como tanta gente, a vê-la como pouco a pouco se tornava mais suave. Assim, calmamente, como faziam por ali.
















fotos de meiomaio


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Montevideo, Uruguay

7.2.17

uma nuvem de pólvora no ar

E o que fica depois da festa e da guerra?
Apenas uma nuvem de pólvora no ar.
Afinal não são mais que dois estados de euforia, nos dois polos opostos.
E gosto, estranhamente, da paz decadente que se instala neste ambiente de nuvem de pólvora pós-festa. Deixa-me num modo totalmente contemplativo e só observo. Quem passa, os ecos que soam abafados de todos os lados, as motas que percorrem solitárias a rua, os cães que ladram, os últimos foguetes que estouram no ar.
E porquê esta solidão tem ao mesmo tempo algo tem algo de tão inspirador que me enche o peito de uma estranha melancolia que se mistura com prazer?


foto de meiomaio


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Tinha chegado naquela manhã, bem cedo, a Montevideo com o Sebastian. A noite do ano-novo ia ser passada como outra qualquer, num jantar na casa dele nos arredores da cidade com mais dois amigos. Para mim, melhor assim.
Um pouco antes da meia noite fui para o terraço e assim fiquei, a observar o céu, na noite mais quente que senti desde que tinha chegado à América do Sul.
Começaram pouco a pouco a estalar pelo ar. Até à meia-noite, em que de todos os lados estoiravam luzes coloridas pelo céu. E assim vivi a passagem para o novo ano. Calada, comigo, e a olhar aquele céu de luzes e explosões que se iam pouco a pouco dissipando. E os miúdos das casas da frente que saiam a mandar petardos, as famílias que começavam a sair, a música latina que com o calar dos fogos se começava a ouvir, assim difusa, talvez abafada por todo aquele fumo de pólvora que pairava pelo ar. E de repente, no meio de tudo, um tango. (ai, e a beleza da melancolia…)
E penso. Em tantas coisas e em nada ao mesmo tempo (talvez devesse só sentir). Na minha vida, no estar aqui, no maravilhoso inesperado da vida. E em ti. E porquê tu sempre tão presente na minha cabeça? (ou no meu peito.)

Montevideo, Uruguay

3.2.17

y el mar poco a poco se volvía río








fotos de meiomaio


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El agua aquí ya no es cien por cien mar. Ya tiene un poco de río. Del Río de la Plata. Por eso no es tan azul y es así menos salada, un poco dulzona. Disseram-me sobre aquele mar.
E apesar de naquele dia até estar bastante azul quando se olhava para o horizonte, quando se entrava nela sentia-se que realmente algo já é diferente. Tinha, por baixo do azul, um tom amarelado e turvo, o sabor já não era aquele salgado forte de mar e o peso também era outro.
E assim me ia despedindo pouco a pouco do meu Atlântico. Em dias de muito sol, pouca roupa, gente amável e descontraída, caminhos de terra para cá e para lá (a pé ou na parte de trás das pick-up), de liberdade, de sombra dos eucaliptos, céu cheio de estrelas à noite, de fogueira, de Candombe tocado entre amigos, de mate bebido na areia acompanhado croissants de queijo e dulce de leche, de calma e tranquilidade, numa casinha de barro. (e internamente um turbilhão)

Cuchilla Alta, Uruguay

30.1.17

do cinzento necessário







fotos de meiomaio
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Lembro-me naquela praia, das tempestades de Verão cheias de força, dessas que nos fazem sentir pequenos, com chuva que encharca até aos ossos, o cheiro das gotas grossas que caiam nas ruas de terra quente e transformavam tudo em lama. Ah, e pela noite, o espectáculo de energia em forma de raios furiosos que se espalhavam pelo céu negro, por cima do mar. (E que alivio o libertar de toda aquela tensão)
E o dar-me conta que nesta viagem um lado de mim anseia por estes estes dias de céu escuro e tempestade. Dou por mim a sentir um estranho alivio e encantamento quando vejo que as nuvens se aproximam (e eu que sou tanto do sol). Será pela necessidade natural de ciclo descendente nesta altura do ano? E por o ter contrariado? Será por, depois de tanto receber, absorver, viver, ver, cheirar, pisar, provar; tenho mais presente em mim essa necessidade de parar, olhar para dentro, reflectir, para poder digerir tudo?
E sim, cada vez é mais evidente essa necessidade de introspecção quando se viaja assim, sem tempo, ao ritmo natural das coisas. E ai tudo tem sentido, até os dias de chuva se tornam necessários e inspiradores.

E de todo o contemplar aquele céu cinzento, toda aquela água por todos os lados, tudo ia fazendo cada vez mais sentido, e as ideias iam tomando forma. As ideias que precisam do tempo que só os dias de chuva dão para poder madurar.
Depois tudo sairá à luz num dia de sol radioso.



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Punta del Diablo, Uruguay

10.1.17

um paraíso desolador















fotos de meiomaio


Ali, no sitio que todos me descreveram como mágico, incrível, maravilhoso, que tinha que ir. Naquele dia, no maior do ano (deste lado) e no menor (desse lado), num dia de céu azul, de sol, de tanta luz, tanto céu e tanto mar. Apesar de tudo naquele dia sentia-me mais próxima do dia escuro desse lado que de toda esta luz deste lado. Naquele dia sentia-me sombria, escura, nocturna.
E sim, o sitio era único: as praias a perder de vista, os leões marinhos, as dunas e toda aquela areia tão fina e tão lisa, a luz do final de tarde que se misturava com uma mágica neblina tão familiar para mim, as casinhas coloridas construídas anarquicamente com o que cada um podia, o ar relaxado e de liberdade que se sentia em tudo ali, as estrelas (tantas) à noite no céu, a fogueira e a música partilhada em volta dela. Mas depois também havia a solidão, o lado autêntico que se sentia que pouco a pouco se ia perdendo pela necessidade de vender exactamente isso ao turismo, os animais mortos espalhados pela areia em vários estados de decomposição (e o cheiro a morte que largavam), a fome, a sede, a imensidão.
Sim, aquela praia para mim foi sem dúvida um mágico e inesquecível paraíso desolador.

Cabo Polonio, Uruguay