22.11.18

de um passado que já não existe

Enquanto caminhava pelas ruas ensopadas (tal como o meu corpo) sentia-me assustada pelo peso que toda a cidade exercia sobre mim. Havia em tudo uma complexidade retorcida. Seria da cidade ou de todas as recordações que me trazia?
O chão brilhava encharcado e um cheiro a metálico pegava-se a tudo. Tudo era metal naquele momento. Duro, complexo, brilhante, frio e impenetrável. Era um misto do medo de chegar, da dimensão da cidade e dos solavancos do avião que ainda ecoavam na minha cabeça.





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"Há memórias por todos os lados. Nas paredes, nos muros, nos bancos, nas árvores. Tudo me recorda histórias, me faz reviver momentos de um passado que já não existe. E o que fica é só isso. As histórias que se escrevem na nossa mente. São muitas. Talvez daí o peso.
E chove, com uma intensidade como só acontece por aqui. E o céu começa a rugir. Mas nem tudo isso consegue lavar as memórias. Elas ficam, desgastadas pelo tempo como as marcas daquele coração pintado em momentos de inocência primaveril que quase roçava a loucura (e foram tantos os momentos de infância tardia vivida debaixo daquelas árvores).
Mas há nestas memórias uma solidão que quase ensurdece de tão estrondosa que é. Todas as almas só estão nas memórias da minha. De resto são lugares despidos de gente. E são as imagens do que permanece que desenham na minha mente a alma do que já se foi e quase posso voltar a sentir as emoções. Mas no fundo são só as formas inanimadas que serviram de fundo a tantas histórias. Essas ficaram naquele momento e o resto são só lembranças. Talvez seja esse o peso.
E do céu ecoam estrondos de raiva e cai tanta água, tanta. Será para limpar tudo o que ficou em mim?"





fotos de meiomaio


Barcelona, Catalunha, Espanha

12.4.18

ainda que só dure uns dias

Magnólias. Até o nome é exuberância.
Quando ainda nada teve coragem de brotar, elas explodem, orgulhosas e seguras de si, com uma força de mulher adulta que já não perde tempo com vergonhas e recatos.
Bem longe da inocência das primeiras flores de amendoeira, toda aquela maturidade surge ainda em dias gelados de inverno.
E, ignorando tudo o que as rodeia, celebram com todo o esplendor a sua Primavera.







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Ainda que só dure uns dias.

Porto, Portugal (em dias de Inverno)

28.2.18

sempre o azul




E tudo acabou como começou.
Naquelas praias recortadas entre montanhas cheias de vida.





Depois onze horas de azul atlântico. Até ao lado de cá.
Sempre o azul.


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Ferrugem, Santa Catarina, Brasil e Costa de Portugal

20.2.18

la tierra colorada

A viagem seguiu em direcção ao Norte.
E a vegetação era cada vez mais densa. O cheiro mais forte. O ar mais húmido. As cores mais intensas.


A terra tingiu-me os pés de vermelho.
E de repente a vida começou a brotar por todos os lados.















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Tanta vida.
A verdadeira riqueza florescia ali em cada detalhe.


Eldorado, Misiones, Argentina

2.2.18

el paso de los Andes

Qualquer palavra se torna pequena diante daquela imponência. E assim passei, sozinha, em silêncio, as montanhas mais altas que alguma vez vi. Num autocarro. Uma aduana pelo meio. E um olhar maravilhado por tanta grandiosidade, tanta força.


As imagens falam por si.








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paso de Uspallata, Chile e Argentina

16.1.18

en un cálido atardecer

Me acuerdo de despedirme de ti en un cálido atardecer.

Ciudad de las calles viejas y coloridas que suben y bajan como un laberinto de colores y poesía, de los perros abandonados que duermen cerca de la gente buscando un poco de cariño, del puerto industrial de donde salen ruídos metálicos y que sólo se ve (y se escucha) desde los miradores. Del caos de las calles de abajo con toda la gente vendiendo todo el tipo de cositas más o menos inútiles en un trapo en el suelo. De la comida humilde, de verdad (casi siempre con palta). De los rincones de las calles, negros de la suciedad de todo lo que pasa en ellas. Del mar siempre al fondo. De los gatos. Del canto ansioso de la gaviotas.


Bohemia, decadente, marítima y envejecida.
Y encantadora.   .











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Valparaíso, Chile

9.1.18

Valparaíso

Talvez um dos nomes mais bonitos de cidade que alguma vez ouvi. Só por isso tinha de valer a pena. E por estar ao lado do mar.
Por isso fui sem duvidar. Iam ser três semanas (o único tempo definido daquela viagem). E foram dias de muita cor. De muita introspecção sob o canto das gaivotas. E de tantas mensagens escritas pelas paredes. (que me iam dizendo tanto)
















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Valparaíso, Chile