5.12.17

daqueles inesquecíveis finais de tarde

Nunca tinha estado tanto tempo longe do mar como daquela vez.


"Há quase três meses que não vejo o mar. Há quase três meses que vivo rodeada de montanhas e lagos, num ambiente que nunca definiria como meu.
E muitas vezes começa a pesar. A falta do horizonte (que seja só uma linha, entre azul e azul). A falta da força, das águas que que têm vida. A falta do ar húmido que me beija a cara com aroma a sal. O frio que pouco a pouco vai chegando. A neve que começa a ameaçar.
É que, por muito bonito que seja, não sou nem nunca serei uma pessoa de montanhas. Gosto delas, para passar uma semana e ir embora. Depois sufoca-me.
E estou aqui há quase dois meses. E há dias que só quero fugir até onde volte a sentir o sabor das ondas no ar. Este ambiente não é para mim.

Mas depois vêm os finais de tarde. E o admirar de todos os tons que estas montanhas podem ter, como mudam magicamente de cor, e como tudo se reflete nas águas do lago.
E faço as pazes contigo.
Estas cores de fim de tarde acalmam toda a minha estranheza por estes ambientes e relembram-me que, apesar de tudo, esta é a paisagem de montanhas mais bonita que já vi na vida.
Sim, esta mesmo, aquela que vejo da janela todos os dias e a mesma que há quase dois meses me gritou, em tons de azul, “Estás na Patagónia”."





fotos de meiomaio


lago Nahuel Huapi, Bariloche, Patagónia, Argentina

22.11.17

um silêncio que só existe no amanhecer

Foi a noite mais fria de toda a viagem (e talvez de toda a minha vida).
A tenda, o saco-cama de verão e toda a roupa que pude vestir de pouco serviram naquela noite de dois graus em pleno verão da Patagónia. As horas custavam a passar com o corpo cada vez mais rígido tentando de alguma forma produzir calor. Só queria que amanhecesse para procurar desesperadamente os primeiros raios de sol.
Saí da tenda mal senti alguma luz lá fora. O ar estava gélido, limpo, puro. Tudo era tão puro naquele momento. E o silêncio. Um silêncio que só existe no amanhecer.



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De repente toda aquela noite tinha valido a pena.
E o dia foi passado a admirar as cores com que se ia pintando o céu.






fotos de meiomaio


Lago Traful, Patagónia, Argentina

26.9.17

celebrar a vida








fotos de meiomaio


"Tudo está em harmonia quando está no caminho certo. Assim simplesmente, tudo se torna num perfeito equilíbrio, naturalmente, sem forçar.
Como em perfeição se conjugam este lago, estas árvores imponentes, este terra cheia de morte que se transforma em vida, estas montanhas onde tudo se assenta, a água que escorre por entre as pedras, o vento que passa por entre as folhas de tantas árvores, as nuvens que começam a chegar depois de tantos dias de céu perfeitamente azul. E todas as estrelas à noite. E a escuridão por entre as árvores que me ensina que afinal o céu à noite não é negro, é luz. São nuvens de pontos de luz.
O ter tempo que parece infinito. Sentir o passar de cada segundo e quase alcançar a ilusão do presente. E poder parar, sentir, respirar. Simplesmente ser. E o silêncio. Oh, a doce melodia do silêncio que nos faz escutar o trabalhar do nosso corpo e sentir que estamos vivos. Sim, só no silêncio podemos sentir a vida a pulsar em toda a nossa carne. E sentir a matéria de que somos feitos. O mesmo pulsar de toda a natureza que me rodeia. Tudo palpita, voa, escorre, estala, range, nasce e morre. E entre uma e outra celebra deliciosamente a vida. E ai, quero poder bailar a vida agora, como essas centenas de mosquitos que bailam ao final do dia sobre a luz mágica das águas azuis e prateadas."

Laguna Llum, Patagónia, Argentina

20.9.17

de um azul impossível

Depois fomos até à floresta. Ao lago, às montanhas mais de perto (enormes, cada vez mais poderosas). Às águas frias e transparentes, ao bosque das árvores mais altas que alguma vez tinha visto, ao ar frio e límpido, à terra pura. Deitamo-nos naquele bosque, inundamo-nos dele e só aí, pouco a pouco, as palavras começaram a sair.
A energia daquela terra consome-me e alimenta-me ao mesmo tempo, como a paixão que tenho por ti. E que carga de melancolia em tudo aquilo (daquela deliciosa, em tons de azul). E tanta introspecção.






fotos de meiomaio


De repente, já estava submergida naquilo tudo. Em todo aquele verde, debaixo de um céu tão limpo e sob as águas mais puras e cristalinas que alguma vez senti, de um azul impossível. E deixo-me sentir o seu leve balançar, ali no meio daquele imenso lago, rodeada pelas grandiosas montanhas. E todo aquele silêncio que inunda a alma. Era a leveza, a liberdade, a plenitude.

Parque Nacional Nahuel Huapi, Patagónia, Argentina

28.8.17

paixão

A paixão. Ao limite.
Não, a paixão não pode ser só alegria. Paixão é intensidade. E isso mexe com tudo o que é emocional e sensível em nós. Tudo o que é flor frágil ao vento ou pétala à deriva do mar. Deixamos de controlar. Vira tudo ao contrário. Dá voltas à cabeça, ao peito, ao estômago. Descarga energia em todo o corpo. Quero descansar e nem isso posso. Consome-me até ao final de tudo. Até doer. Até doer deliciosamente ao ponto de querer mais e mais. Tudo se agita, tudo ferve. Sim, é como uma grande febre que nos consome. E queremos que nos consuma mais e mais. Até esgotar. E esgota-se? Não se alimente a ela própria? Constrói-se para se ir consumindo e o fogo do seu consumo constrói mais e mais e quer mais calor. É doentio e desequilibrado, dá-nos fome de mais e alimenta-nos a alma ao mesmo tempo.




Cheguei bem tarde, numa noite fria (e há tanto tempo que não sentia um frio assim) e no meio de uma escuridão que nada deixava ver. Tudo o que vi (e foi tanto) vinha de dentro. Só na manhã seguinte olhei pela janela da sala e lá estava ela. Imponente, arrebatadora: a cordilheira dos Andes ao fundo das águas do imenso lago. Tudo em tons frios de azul. E grande, tão grande.
A Patagónia.
Cheguei a ela ali, naquele olhar. E foi um inundar e esvaziar ao mesmo tempo.

foto de meiomaio



Bariloche, Patagónia, Argentina

22.6.17

La Pampa

Dois dias de estrada. Mil seiscentos e cinquenta quilómetros de caminho. À boleia.
Duas pick-up, dois carros, vários camiões. Quase todos os quilómetros no lento baloiçar dos camiões. A ver como toda a paisagem passava com calma, pouco a pouco, lá de cima. Há que saber esperar, e viver esse caminho. O destino: Bariloche, Patagónia (e o teu olhar).
Ainda na despedida de Capilla del Monte foi viajar com os cabelos ao vento e a pele ao sol quente. O ar seco. Outros viajantes que se juntavam a nós na parte de trás das pick-ups e um que me falava de aura e de energia “Tienes una bonita aura naranja.”, “camina descalza sobre el césped y agarralo bien”  enquanto me fazia uma massagem nos pés empoeirados pela mesma terra que por aqueles lados cobre todas as estradas.
Depois, o primeiro camião. Muitas horas, muitos quilómetros. E ver o anoitecer sobre aquelas planícies infinitas.
Lembro-me de, já em plena noite, enquanto dormitava na parte de trás dos assentos, abrir os olhos e ver no meio da escuridão, iluminada pelos faróis, uma placa: “Província de La Pampa. Patagónia, Argentina”. E dali de trás, de onde ninguém me via, sorri em silêncio, por dentro e por fora. E uma emoção e adrenalina percorreram todo o meu corpo.
Patagónia. Porque é que aquela palavra tinha aquele poder sobre mim? Pelo mito que se foi tornando na minha mente. Era o destino. A terra distante, lá no fundo, lá na ponta. Do outro lado do (meu) mundo. Sim, não era a palavra, era o que eu criei em volta dela que me aquecia o peito daquela maneira. Nós criamos as emoções, fabricamo-las e vivemo-las. Mas por isso não deixa de ser real. Haverá algo mais real que os sonhos e as ilusões? E voltei a fechar os olhos.







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Já por volta das duas da manhã o camião deixou-nos num cruzamento entre duas rectas infinitas. Na manhã seguinte a direcção deixava de ser Sul e passava a ser Oeste. Foi montar a tenda e dormir o possível até voltar a acordar com o som dos camiões e voltar à estrada com o Pablo, um rapaz que conheci em Capilla e que vinha na mesma direcção que eu.
La Pampa era um imenso deserto de planícies sem fim, de um calor cada vez mais seco e terras cada vez mais despovoadas. E estar no meio daquelas estradas sem fim à espera que passe alguém que nos leve. Mas os camionistas sempre nos salvavam. Tanta imensidão sem nada a toda à volta. Tudo tão desolador, vazio, inóspito e inspirador ao mesmo tempo. Que diferentes as dimensões de tudo ali. E tudo era igual, e aquelas rectas, eternas. E assim se passaram horas e horas. Toda uma manhã, toda uma tarde. E como que hipnotizada pela monotonia daquela caminho, pouco a pouco deixávamos La Pampa e entrávamos na Província de Río Negro.
Já com os últimos resquícios de luz de dia conseguimos a nosso último camião que nos levaria nos quatrocentos quilómetros que ainda faltavam para o destino. E naquele momento já nem conseguia pensar em nada. Nem saber bem onde estava. Apenas me deixava levar por aquele lento embalar pelas estradas escuras em direcção aos Andes.







fotos de meiomaio


entre Capilla del Monte e Bariloche, Argentina

4.5.17

a voz do rio

Lembro-me de chegar ali numa manhã de sol bem quente. Num autocarro que percorria alegremente as estradas entre aldeias coloridas ao som de cumbias festivas e de amenas conversas com os conductores enquanto tomávamos mate com sumo fresco.
De toda a noite de viagem só me lembro de abrir os olhos lentamente e, como num sonho enevoado, ver a lua linda, amarelada, quase quase cheia, iluminando as planícies escuras. E o autocarro seguia-lhe a luz por aquelas estradas intermináveis em linha recta.
Essa lua levou-me às montanhas. Depois de tanta planície elas apareceram, e o verde, e a água. A água que corria por entre aqueles penhascos. E toda aquela limpeza e frescura sabia tão bem depois da sujidade e do peso da grande cidade. E foram dias assim simples; de caminhadas até aos rios, de boa companhia, de risos e longas conversas em noites cálidas. De deixar aquela água correr fresca pelos pés, por todo o corpo, pela alma. De fechar os olhos e escutar a sua voz. E como me limpava aquela melodia.










fotos de meiomaio


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Capilla del Monte, Argentina

24.4.17

hasta pronto Buenos Aires

No dia anterior à partida senti a cidade em todo o corpo. E principalmente nos pés. Com o passar das horas cada vez sentia mais neles as distâncias. O tamanho brutal da cidade. E ao final do dia, ao chegar a casa, nova tempestade. Uma chuva forte inundou as ruas os meus pés cansados caminharam pela água que corria pelas estradas, pelos passeios. E toda aquela cidade me inundou no dia em que me despedia dela.

E sim, aquela é uma diva apaixonante, que mostra todos os seus encantos até estares totalmente rendido. Mas não se apaixona por ti. Como diva que é foi feita para ser admirada, idolatrada, para receber amor, não para dar. Anda demasiado ocupada a espalhar o seu charme por todos os seus pretendentes. E porque são demasiados os que a querem tudo se torna tão impessoal.
Talvez seja dessas cidades que sempre a vejas assim, da plateia, e ela lá do alto actua para ti (ainda que seja num velho teatro em decadência). Mas nunca dançarás o tango com ela. Sabes que não poderias, e resignas-te à tua posição de admirador.
E não importa se te vais. És só mais um, no meio de tantos milhões. E ela continuará, divina e segura de si, lá do alto do seu pedestal.
Naquele dia deixava-te, sem saber se voltaria a sentir esse teu charme e encanto. Mas sempre te recordarei com a paixão que me despertaste desde o momento em que te vi surgir das águas do Río de la Plata.






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Retiro, Buenos Aires, Argentina