22.6.17

La Pampa

Dois dias de estrada. Mil seiscentos e cinquenta quilómetros de caminho. À boleia.
Duas pick-up, dois carros, vários camiões. Quase todos os quilómetros no lento baloiçar dos camiões. A ver como toda a paisagem passava com calma, pouco a pouco, lá de cima. Há que saber esperar, e viver esse caminho. O destino: Bariloche, Patagónia (e o teu olhar).
Ainda na despedida de Capilla del Monte foi viajar com os cabelos ao vento e a pele ao sol quente. O ar seco. Outros viajantes que se juntavam a nós na parte de trás das pick-ups e um que me falava de aura e de energia “Tienes una bonita aura naranja.”, “camina descalza sobre el césped y agarralo bien”  enquanto me fazia uma massagem nos pés empoeirados pela mesma terra que por aqueles lados cobre todas as estradas.
Depois, o primeiro camião. Muitas horas, muitos quilómetros. E ver o anoitecer sobre aquelas planícies infinitas.
Lembro-me de, já em plena noite, enquanto dormitava na parte de trás dos assentos, abrir os olhos e ver no meio da escuridão, iluminada pelos faróis, uma placa: “Província de La Pampa. Patagónia, Argentina”. E dali de trás, de onde ninguém me via, sorri em silêncio, por dentro e por fora. E uma emoção e adrenalina percorreram todo o meu corpo.
Patagónia. Porque é que aquela palavra tinha aquele poder sobre mim? Pelo mito que se foi tornando na minha mente. Era o destino. A terra distante, lá no fundo, lá na ponta. Do outro lado do (meu) mundo. Sim, não era a palavra, era o que eu criei em volta dela que me aquecia o peito daquela maneira. Nós criamos as emoções, fabricamo-las e vivemo-las. Mas por isso não deixa de ser real. Haverá algo mais real que os sonhos e as ilusões? E voltei a fechar os olhos.







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Já por volta das duas da manhã o camião deixou-nos num cruzamento entre duas rectas infinitas. Na manhã seguinte a direcção deixava de ser Sul e passava a ser Oeste. Foi montar a tenda e dormir o possível até voltar a acordar com o som dos camiões e voltar à estrada com o Pablo, um rapaz que conheci em Capilla e que vinha na mesma direcção que eu.
La Pampa era um imenso deserto de planícies sem fim, de um calor cada vez mais seco e terras cada vez mais despovoadas. E estar no meio daquelas estradas sem fim à espera que passe alguém que nos leve. Mas os camionistas sempre nos salvavam. Tanta imensidão sem nada a toda à volta. Tudo tão desolador, vazio, inóspito e inspirador ao mesmo tempo. Que diferentes as dimensões de tudo ali. E tudo era igual, e aquelas rectas, eternas. E assim se passaram horas e horas. Toda uma manhã, toda uma tarde. E como que hipnotizada pela monotonia daquela caminho, pouco a pouco deixávamos La Pampa e entrávamos na Província de Río Negro.
Já com os últimos resquícios de luz de dia conseguimos a nosso último camião que nos levaria nos quatrocentos quilómetros que ainda faltavam para o destino. E naquele momento já nem conseguia pensar em nada. Nem saber bem onde estava. Apenas me deixava levar por aquele lento embalar pelas estradas escuras em direcção aos Andes.







fotos de meiomaio


entre Capilla del Monte e Bariloche, Argentina

4.5.17

a voz do rio

Lembro-me de chegar ali numa manhã de sol bem quente. Num autocarro que percorria alegremente as estradas entre aldeias coloridas ao som de cumbias festivas e de amenas conversas com os conductores enquanto tomávamos mate com sumo fresco.
De toda a noite de viagem só me lembro de abrir os olhos lentamente e, como num sonho enevoado, ver a lua linda, amarelada, quase quase cheia, iluminando as planícies escuras. E o autocarro seguia-lhe a luz por aquelas estradas intermináveis em linha recta.
Essa lua levou-me às montanhas. Depois de tanta planície elas apareceram, e o verde, e a água. A água que corria por entre aqueles penhascos. E toda aquela limpeza e frescura sabia tão bem depois da sujidade e do peso da grande cidade. E foram dias assim simples; de caminhadas até aos rios, de boa companhia, de risos e longas conversas em noites cálidas. De deixar aquela água correr fresca pelos pés, por todo o corpo, pela alma. De fechar os olhos e escutar a sua voz. E como me limpava aquela melodia.










fotos de meiomaio


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Capilla del Monte, Argentina

24.4.17

hasta pronto Buenos Aires

No dia anterior à partida senti a cidade em todo o corpo. E principalmente nos pés. Com o passar das horas cada vez sentia mais neles as distâncias. O tamanho brutal da cidade. E ao final do dia, ao chegar a casa, nova tempestade. Uma chuva forte inundou as ruas os meus pés cansados caminharam pela água que corria pelas estradas, pelos passeios. E toda aquela cidade me inundou no dia em que me despedia dela.

E sim, aquela é uma diva apaixonante, que mostra todos os seus encantos até estares totalmente rendido. Mas não se apaixona por ti. Como diva que é foi feita para ser admirada, idolatrada, para receber amor, não para dar. Anda demasiado ocupada a espalhar o seu charme por todos os seus pretendentes. E porque são demasiados os que a querem tudo se torna tão impessoal.
Talvez seja dessas cidades que sempre a vejas assim, da plateia, e ela lá do alto actua para ti (ainda que seja num velho teatro em decadência). Mas nunca dançarás o tango com ela. Sabes que não poderias, e resignas-te à tua posição de admirador.
E não importa se te vais. És só mais um, no meio de tantos milhões. E ela continuará, divina e segura de si, lá do alto do seu pedestal.
Naquele dia deixava-te, sem saber se voltaria a sentir esse teu charme e encanto. Mas sempre te recordarei com a paixão que me despertaste desde o momento em que te vi surgir das águas do Río de la Plata.






fotos de meiomaio


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Retiro, Buenos Aires, Argentina

7.4.17

en blanco y negro







fotos de meiomaio




Montserrat, Buenos Aires, Argentina

3.4.17

en color








fotos de meiomaio


hoje deixemos falar as paredes.

La Boca, Buenos Aires, Argentina

26.3.17

un tango. o la ilusión de algo que se sabe que nunca llegará.

Esta ciudad es furia, fuerza, pasión. Pero a la vez melancolia, dolor, anhelo, una ilusión de algo que se sabe que nunca llegará.
Es una flor de un rojo fuerte, oscuro, con pétalos de terciopelo y un poco envejecida. Tiene este encanto de las cosas de otros tiempos que aún se intentan mantener. Con su olor a moho, con sus telarañas, con sus arrugas, con los colores quemados del sol y un polvo de decadencia que lo cubre todo. Y que la vuelve mágica y única.
Y todos aquellos objectos antíguos en tonos de marrón y gris (serán estos los colores del paso del tiempo?) en el mercado de San Telmo (y la diva olvidada, allí estaba de nuevo, joven, con un vestido rosa pureza, enmarcada por un recuadro dorado que no perdonaba la vejez del ahora). Las farolas colgando de finos cables por encima de las calles. Los libros con olor a papel vivido, amarillento; tan presentes en todos lados.

















fotos de meiomaio


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Y el tango. Allí lo vi por primera vez. No lo busqué, vino hasta mi. En aquella plaza, de repente la musica empezó a sonar.
Y me quedé. Toda una tarde. Toda una noche. Y cada vez que la música volvia todo se llenaba de un aura de poesía, amor, drama, fuerza. Y era imposible no enamorarse.
Era la mezcla perfecta entre el placer del enamoramiento, del deseo y el placer del dolor. Y eso es la pasión, en toda su potencia. Es esa mezcla que arrebata en el fondo del pecho y remueve todo lo sentimental que tenemos.
Y así me quedé. Mirándolos. Y sintiendo la pasión en todo mi cuerpo. Y el corazón caliente. En una noche de verano en el centro de Buenos Aires.



San Telmo, Buenos Aires, Argentina